A sabedoria oriental tem muitos ensinamentos úteis, com milhares de anos, mas que continuam atuais mesmo na modernidade. Mas, como é difícil segui-los, não? Um dos ditados que eu mais gosto na cultura japonesa é 「失敗は成功の元」(“O insucesso é a base do sucesso”).
No dia-a-dia aprendemos a partir de nossos erros, e não há outra forma de aprender senão assim. Quando fazemos tudo certinho, no máximo sabemos que as coisas estão indo bem, mas na verdade não aprendemos de verdade, simplesmente mostramos que sabemos seguir um roteiro. No dia que o “piloto automático” não der os resultados esperados, não saberemos o que fazer. Por outro lado, quem tem que descobrir as vias de como realizar uma tarefa e erra, sabe o resultado da decisão errada e é obrigado a pensar como evitar o indesejável. Abrem-se diversas possibilidades de escolhas alternativas, ou se criam novas condições para que a mesma ação tenha um resultado diferente. Assim, o erro traz sabedoria e criatividade, não vergonha ou prova de incapacidade. É o erro que nos faz aprender.
Muitas pessoas que vêm às palestras do CIATE dizem que já estão muito velhas, que não podem mais errar. Porém, errar não só é humano, como é um direito das pessoas. Ninguém é perfeito, e por isso mesmo jamais se pode exigir de alguém que não erre na primeira vez. A questão é: não se deve errar grande, é preciso aprender a errar.
Por exemplo, vamos imaginar alguém que organiza uma festa. Se for a primeira festa que organiza, é difícil prever quantas pessoas vem, então, é difícil também calcular a quantidade de comida e bebida a se preparar, os assentos a providenciar, mesas, decoração e música que agrade todos, etc. Normal é que falte ou sobre um pouco de tudo, que algumas coisas falhem, que nem tudo saia conforme se planeja. Errar grande é inventar de tocar música eletrônica num baile de terceira idade, pra inovar; ou fazer uma festa com tema indiano, com comidas vegetarianas exóticas para crianças até 10 anos – não funciona. Quem gasta 100% do dinheiro conseguido no Japão no negócio que acaba de abrir, sem experiência anterior na área, está errando grande. Deve-se gastar no máximo 50% disso – pois, no caso de ter errado, ainda há 50% do dinheiro para se reestruturar e tentar diferente. Quem vai se empregar numa colocação com a qual não tem a mínima afinidade, porque “dá dinheiro”, também está errando grande. Fica mais difícil se tornar um profissional competente, e os gastos para consertar um problema de saúde por estresse e depressão são muito maiores que o que se pode ganhar. E ainda gera frustração porque a coisa não anda na vida.
Errar grande também é repetir os mesmos erros anteriores, insistir em fórmulas que já se provaram antiquadas e falhas. Abrir um restaurante “porque todo mundo tem que comer todos os dias” é uma das fórmulas furadas: todo mundo tem que comer todos os dias, mas quem quer comer sempre no mesmo lugar, o mesmo tipo de comida? As pessoas gostam de variar, sem contar a questão dos custos, pois sempre sai mais em conta comer em casa. Os únicos lugares onde se come sempre sem reclamar é a própria casa, ou a casa da mamãe... e ainda assim tem quem reclame!
Não tenhamos medo de errar. Evitemos apenas os erros grandes, e assim nos tornaremos mais sábios, e mais próximos do sucesso.
Marcos Hiroyuki Suguiura
Psicólogo, mestre em Psicologia Social pela USP, professor de japonês, ex-decasségui