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Reflexões

Crise - Tempo de quê?

      Os decasséguis no Japão, junto com os nativos, estão passando por duras provações. Não bastassem as crises econômicas internacionais e internas sucessivas que abalaram o mercado japonês, mais um grande abalo (literalmente) afetou a vida destes no país: o Grande Terremoto do Leste do Japão, em março deste ano.

 

     É muito comum encarar tantas dificuldades como momentos ruins, que logo passam, ou como maus presságios que anunciam tempos ainda piores. Nem o otimismo nem o pessimismo exagerados são bons guias: ao mesmo tempo em que o Japão é um dos países mais estáveis nos campos social, econômico e político, ele não é dos mais beneficiados pela natureza, sendo atingido rotineiramente por terremotos, tsunamis e tufões. Não se deve nem se acomodar, esperando que o vento traga melhorias idealizadas, jogando para o Destino a responsabilidade pelas condições em que se vive, nem cair em desalento, achando que tudo está perdido, por isso não vale mais a pena lutar. É preciso encarar a realidade de frente, mas sem esmorecer.

    Como as crises são inevitáveis, podemos ao menos ajustar nossa forma de encará-las. Em japonês, a palavra Crise é grafada com dois ideogramas (危機) cuja leitura é “Kiki”. O primeiro Ki é de “Abunai”, ou Perigo, Ameaça; o segundo é de Tempo, mas também de Tear. Como assim?

     Para quem não conhece essa máquina, ela tem vários fios esticados num mecanismo que os alterna para cima e para baixo e, entre um movimento e outro, passa-se a Lançadeira com mais um fio, para criar pelo seu entrelaçamento os mais belos tecidos. Para que tudo dê certo, a Lançadeira precisa passar entre os fios no momento certo, para não ficar preso justamente no momento de alternância dos fios.

     A partir dessa idéia, o ideograma para Tear passou a representar também o momento ideal para jogar a Lançadeira, ou Oportunidade, e faz parte também da palavra 機会 (“Kikai”), que significa Oportunidade, que é o Encontro (会) dos Momentos Certos (機). Dito de outra forma, podemos encarar Crise como Ameaça, mas também Oportunidade para mudanças.

     Observar quando é o tempo ideal para passar a Lançadeira para o outro lado é importante para tecermos nossa Vida. Esperar tempo demais ou jogar-se de forma inconseqüente são igualmente perigosos, pois o Mundo não volta para que voltem as oportunidades, nem espera que terminemos as coisas no nosso tempo, atropelando quem foi descuidado.

     Não permita que sua vida se torne apenas um emaranhado de fios.

 

Marcos Hiroyuki Suguiura
Psicólogo, mestre em Psicologia Social pela USP, professor de japonês, ex-decasségui.

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